quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vamos começar (Karina Gera)

Palavra pequena que carrega enorme sistemática: Í N I C I O!
Por que é tão difícil começar? Estamos sempre esperando alguma coisa acontecer para começar. Uma dieta tem data marcada para uma segunda-feira, que, se não for esta será a próxima; Uma viagem depende do bom tempo ou de um dinheiro extra que teima em chegar; Fazer atividades físicas está condicionado a sair mais cedo do trabalho; Visitar a família ou sair com os amigos depende de cancelar compromissos.
Enquanto procuramos palavras para retardar nossas ações perdemos uma preciosidade: o tempo. Cada manhã traz um tempo que se foi e também uma nova chance para começar.

Águas de Março (Karina Gera)

Pingo é letra
Chuva é poesia
Temporal é sentimento
Arco íris é alegria.

Sol é gente na areia
Barco na água é calmaria
Maré alta é lua cheia
Anzol e rede é pescaria.

Piracema é reprodução
O homem é ansioso
Quatro meses é muito tempo
Esperar é custoso.

Nadar contra a correnteza é divino
Águas de março é um presente
O rio é um mar de alevinos
A natureza cumpriu seu destino.

Pintando uma caixa d´agua

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ver para ouvir (Karina Gera)

Nossa percepção está mudando tanto que simplesmente não ouvimos mais com os mesmos ouvidos. A multitecnologia multimídia com “multiseilaoquê” nos transportou rapidamente para um mundo sem ritmo. Com a mesma velocidade que o CD se foi, a concepção de música também mudou, agora ela não é mais ouvida, mas assistida. Os DVDs possuem clipes, cenas extras e tudo mais, escutar é acessório integrado e a qualidade musical é inerente ao contexto, o sucesso depende mais da performance do artista que rebolation mais.
Superproduções hollywoodianas não são somente para o cinema, vender música depende da quantidade de cifrões contidos nas letras.
Corpos esculturais seminus e muita coreografia sensual, este é o novo hit do momento: música para ser devorada com os olhos.

Sem cor (Karina Gera)

Olhava insistentemente na mesma direção, um pobre cão, magrelo, sem cor, não se podia dizer que era marrom, nem que era caramelo, era um tom assim meio amarelo, mas pobre cachorrinho, nem cor tinha o bichinho. Esperava por um dono, abandonado de baixo de uma marquise, com frio, fome e sem nome, arriscou correr atrás de um homem que cantava. Na primeira tentativa levou um ponta pé e uma “rosnada”. Revoltado e desanimado, voltou para marquise meio desconfiado. Ajeitou seu traseiro em cima do cimento, passou horas ao relento, ninguém parou. Ao amanhecer, viu um sol diferente, seu brilho era mais reluzente, o que lhe deu coragem para mudar. Levantou e nem se espreguiçou, tinha pressa de uma nova jornada começar. Olhou para o horizonte atento, sacudiu seu pelo pulguento e partiu sem para trás olhar.
O cão sem cor nunca mais foi visto naquela vizinhança, porque após aquele dia, o brilho da esperança o transformou no cão mais colorido do mundo.

passante